quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A Ordem da Salvação


Rev. Ronald Hanko
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Quando em teologia falamos da “ordem da salvação”, estamos falando das diferentes partes da salvação como elas são aplicadas e dadas ao povo de Deus pelo Espírito Santo. Em outras palavras, a “ordem da salvação” descreve a obra do Espírito de Deus em nós.

A coisa mais próxima que temos de uma ordem da salvação na Escritura é Romanos 8:30, mas essa não é uma ordem da salvação no sentido teológico estrito. Por exemplo, a passagem fala de predestinação, que não é parte da obra de Deus em nós, mas algo que ele fez por nós antes da fundação do mundo.

Uma ordem típica da salvação é aquela seguida pelo Catecismo Maior de Westminster: união com Cristo, chamado eficaz, justificação, adoção, santificação, e glorificação. Outros propõem uma ordem diferente. Muitos, por exemplo, incluiriam a regeneração e a fé. Em todo o caso, o propósito de tal ordem é tentar entender a relação entre essas diferentes partes da nossa salvação, todas das quais são descritas na Escritura.

Várias coisas devem ser lembradas ao falarmos de tal ordem.

Devemos lembrar que essa é apenas uma tentativa de entender esses conceitos bíblicos e de forma alguma deve ser entendido mecanicamente, como se primeiro recebêssemos uma bênção, então a próxima, e assim por diante. O fato é que em nossa experiência, muitas dessas bênçãos são recebidas ao mesmo tempo. Também, muitas delas não são acontecimentos espirituais de uma vez por todas. A santificação, por exemplo, é algo que começa quando uma pessoa é primeiramente salva e continua até o próprio momento da morte. A aplicação da salvação não acorre toda de uma vez por todas, mas é algo que dura toda a vida – algo finalizado somente quando estamos finalmente com Cristo no céu. Isto é, sem dúvida, negado por aqueles que crêem no perfeccionismo e na santificação completa; eles tendem a ver a aplicação da salvação como uma coisa de uma vez por todas.

Numa ordem da salvação Reformada, existem várias coisas que devem ser enfatizadas e não podem ser mudadas. A regeneração e o chamado eficaz devem vir antes da fé, caso contrário temos a fé como uma obra do homem, que é Arminianismo. A própria fé deve vir antes da justificação para manter a grande verdade Protestante da justificação pela fé somente. Finalmente, a justificação deve preceder a santificação, caso contrário temos a doutrina Romana da justificação pelas obras.

Tudo isso é somente dizer que a única coisa que qualquer ordem da salvação deve ensinar é que também em sua aplicação, a salvação é inteiramente a obra do próprio Deus através das operações soberanas do Espírito Santo. É tudo de graça e, portanto, pertence “ao Senhor” (Jonas 2:9).


Fonte (original): Doctrine according to Godliness, Ronald Hanko, Reformed Free Publishing Association, p. 185-186. http://www.monergismo.com/

Heloisa Rosa - Eu Vejo a Cruz (David Quinlan)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Felicidade


Dr. Gordon Haddon Clark
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto


“Felicidade” (eudamonia, de onde derivamos eudemonismo) é o termo que Aristóteles usou para designar o objetivo da vida. Ela é um fim em si mesmo, nunca um meio para algo mais: “Honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras formas de excelências, embora as escolhamos por si mesmas... escolhemo-las por causa da felicidade... Mas ninguém escolhe a felicidade, visando as várias formas de honrarias ou prazer, nem como um meio para algo além dela mesma” (Nicomachean Ethics, I, vii, 1097b1-6).

Embora o termo “felicidade” pareça designar um fim único, ele na verdade consiste de várias partes, todas necessárias. Dois fatores a serem escolhidos voluntariamente são aquilo que é virtuoso e a atividade racional. As virtudes são a coragem, temperança, liberalidade, e assim por diante. A atividade racional é uma questão de estudar física, metafísica, etc. A razão é que essas são funções do homem como homem. O propósito de uma flauta é produzir música; o propósito de um peixe é produzir peixe; o propósito de um sapateiro é produzir sapatos; mas o propósito do homem como homem é viver virtuosa e racionalmente.

Existem também alguns fatores involuntários na felicidade. Uma vida de tragédia ou desgraça (mesmo desmerecida) não é uma vida feliz. Nem pode um homem ser chamado de feliz se é o seu filho quem sofre a tragédia. Portanto, é impossível saber se um homem é feliz, até que ele tenha morrido.

A ética de Agostinho também era o eudemonismo. A vida boa é uma vida de felicidade (beatitudo, beatitas; ambos termos cunhados por Cícero). Todos os homens desejam a felicidade (De Trinitate, X, v, 7). “Ninguém vive como desejaria, a menos que seja feliz” (De Civitas Dei, XIV, 25). Ora, Agostinho não menosprezaria virtudes tais como coragem e temperança; nem desdenharia do pensamento racional. Na verdade, ninguém pode ser feliz sem o conhecimento da verdade. Nisso há uma similaridade com Aristóteles. Mas Agostinho substitui o secularismo de Aristóteles pelo conteúdo cristão. Deus é a verdade e conhecer a Deus é a verdadeira sabedoria. Portanto, a felicidade que Agostinho recomenda torna-se bem-aventurança ou beatitude.

De maneira mais explícita: sabedoria não é o conhecimento de algum deus pagão, nem mesmo do, digamos, primeiro princípio de Spinoza. Ter sabedoria é ter Cristo. Cristo é a verdade; Cristo é a sabedoria de Deus.

Uma razão para fazer dessa verdade o objetivo dos nossos esforços é que se amamos o que podemos perder, não podemos ser felizes. Mas Deus, Cristo, e a verdade são imutáveis, e se temos isso, nossa bem-aventurança é permanente.

O eudemonismo, portanto, não pode ser confundido com o hedonismo, como é algumas vezes ignorantemente feito; os dois formam um contraste.


Fonte: Essays on Ethics and Politics, Gordon Clark, Trinity Foundation, p. 109-110 http://www.monergismo.net.br

Digno, Impressionante Marcos Brunet AO VIVO Legendado pt